Por Jayme Leitão, Arquiteto e Urbanista
Já se disse que a cidade é a maior invenção do homem – e é. Assim, o que procura o viajante nas cidades que aprende a amar ao longo da vida? Deixemos de lado o básico indispensável, como segurança, saneamento, sociedade inclusiva em emprego e renda. O que cativa nessas cidades, penso eu, são dois aspectos.
Primeiro: a cidade que atrai é bela. E não se entenda beleza como padrão de riqueza, mas de harmonia ou surpresa nos contrastes. Assim, Marrakesh, com suas construções cor de telha e suas janelas verde piscina é tão bela quanto Manhattan, ou um vilarejo na Sicília. Se é feia, esqueça, quem viaja pra ver feiura é documentarista.
Segundo: a cidade que atrai convida a caminhar, a passear, a se perder. Aí a calçada faz a diferença: que seja larga, sem postes, arborizada, receptiva. Que não seja limitada por muros, mas por jardins, pracinhas e grades. Que o passeio não seja tomado por carros, pois esse é lugar de uso sagrado do pedestre.
Nesse caso Fortaleza está mal na foto. Já esteve melhor antes do êxodo que esvaziou o sertão e deformou a cidade. Antes dos outdoors que enfearam a paisagem pela ausência de controle e pela explosão do pequeno comércio, antes das touceiras de fios tosando e derrubando sem dó nossas últimas árvores, antes dos passeios se tornarem estacionamento, relegando os pedestres a um deslocamento inseguro pelas coxias.
E não se trata de uma visão apenas estética. O espaço público deve inspirar cidadania, convivência, civilidade. O prefeito que compreender isso transformará Fortaleza, tratando o espaço urbano como prioridade, retirando fios, postes, placas, plantando árvores, recuando muros, permitindo calçadas largas e planas. As ruas serão mais seguras porque mais pessoas lá estarão, o turismo qualificado virá, e o melhor: resgataremos o orgulho e a estima por nossa Fortaleza tão maltratada. Não se trata de obra fácil, mas podemos começar com um polígono que demonstre de forma didática a transformação. O prêmio será um divisor de águas! E para comemorar sairemos às ruas, caminhando e nos apropriando da cidade que perdemos.




















